é um tempo fechado
o insurgente rebelde revoltado revoltoso insubmisso insurrecto sublevado amotinado (pouco muito pouco)

e u m t e m p o f e c h a d o [arroba] insurgente[ponto]net
Outubro, 2007


Quinta-Feira, 18 Outubro 2007
diz-se que o último ministro a acabar o jantar vai lavar a loiça suja...
Qual é diferença entre, não efectuar um referendo por medo que um dos lados ganhe, e não realizar eleições por medo que um partido da oposição as ganhe?
Domingo, 14 Outubro 2007
O meu cérebro quer matar (a vida não tem de ser assim tão dura)
Um dia digo a vida não tem de ser assim tão dura. Não me venham com histórias, não há vida, relação, casamento que sobreviva a um cancro, a dezenas de ciclos de quimioterapia, de radioterapia. Nada sobrevive. Tudo é dilúido em misturas de químicos azuis, vermelhos. Tudo é diluído e um dia olhamos e o que vemos é apenas um catéter ambulante. Não se é mais do que isso, um depósito de fármacos, queimado por dentro e por fora. Não me venham com as histórias de sucesso, e de como se vence a luta apenas porque estamos vivos hoje, dia após ontem, e o que é preciso é espírito positivo, pensamento positivo. A merda! Não me venham com exemplos de gente que passou por um cancro e ainda aí está. Ninguém passa por um cancro. Um cancro atravessa-nos numa travessia interminável pela alma, pelo passado, pelos sonhos e pelo coração, deixando-nos sem futuro, e que repetidamente circula-nos o corpo, o nosso, que está doente e o dos outros, impotentes ambos, e nunca mais nos abandona. Por isso, fodam-se vocês e as vossas associações de fé, voluntárias contra o cancro, ide-vos a foder com as vossas marchas, caminhadas de coração colado ao peito. Doença crónica é o vosso cérebro suas conas. O meu tem vergonha, ódio, amargura, maldade, egoísmo, vómito, o meu quer matar, porque não foi capaz de um beijo, de um abraço, e desculpa-se por não saber que seria a última noite. O meu quer morrer porque só foi capaz de chorar na véspera de uma morte. Mas não tem perdão. O meu ansiou todos os dias e todas as noites por um fim libertador, para depois se arrepender de viver tais desejos. Até que o fim chegou e a calma não voltou. Ainda não voltou. E continua a arrepender-se, todos os dias, de não ter vivido.
Quinta-Feira, 11 Outubro 2007
a vida não é assim
Comprei o livro de José Luís Peixoto, "Cemitério de Pianos" e não o consigo ler. Sempre que chego ao fim do 1º capítulo, fecho o livro, e apago a luz. No dia seguinte ou noutro dia qualquer quando me lembro e me apetece, começo do início. Não, não é um sonho, começo mesmo do início como se não me lembrasse da história. O livro começa com um tipo doente a dizer que sabia que ia morrer assim que soube que estava doente. O tipo morre de doença. O 1º capítulo tem aí umas 3 ou 4 páginas, e lá pelo meio há uma enfermeira que diz para a mulher do tipo que assim que o marido dela falecer telefona a avisar. Há qualquer coisa que não bate certo. Não há nenhuma enfermeira que diga isto. Uma enfermeira não dá a certeza da morte mas a incerteza do "se". Por isso um telefonema é uma possibilidade. Mas como todas as possibilidades tem o seu grau de incerteza. É incerta, mas não menos inquieta. Claro que só percebe isto quem já passou por essa inquietação. Mas nem todas as enfermeiras são iguais.
Há demasiadas certezas neste 1º capítulo, o tipo sabe que vai morrer, a enfermeira sabe que ele vai morrer, a mulher também sabe que o marido vai morrer, a família reúne-se à espera de um telefonema. Demasiadas certezas para uma vida que acaba. É estranho. A vida não é assim. Por isso talvez fecho o livro sempre no mesmo sítio e depois apago a luz.
influência socrática nas criançinhas
"Anda aqui um bicho pequenino a destruir a propriedade."

(ao pequeno-almoço, um prato de corn-flakes, um miúdo e um mosquito da fruta usurpador e comunista)