Juro que vou esquecer (*) que ontem não era dia para ninguém morrer como a mulher que ontem morreu sem ser o seu dia de morrer, que não digo o seu nome pois me faz recordar outro nome que não morre em mim. Como também morreu a D.Madalena que tinha sempre os olhos abertos e a boca postos no céu e que de repente deixou a cama vazia e que nem coragem tive de perguntar onde estava porque sabia por demais que já não estando ali só poderia estar noutro sitio, num céu azul que é assim que imagino que deve ser agora a cor do seu olhar, pois me parecia uma mulher de fé, coisa que a mim se aparta e enlongece. E nada disto tem a ver com essa outra fé, martirizada, ou a outra vendida aos bocados em que cada dia é outro diferente do dia que foi ontem, um dia de cada vez como nos dizem essas almas ambulantes e piedosas que se emprestam à nossa, por aqui, nestas salas de seis camas e algumas já vazias. Um dia de cada vez o tanas! abutres do sofrimento! Uma dor de cada vez é esse o vosso dia para nós, o dia que te dão a ti, a nós, esse não quero!, esse juro que vou esquecer! que eu quero amanhã a mãe do meu filho ao seu lado, daqui a dez anos quando ele fizer dezoito e finalmente já for direito e certo exigir a sua vida longe da tua.
(*) alguns dias depois de ler a crónica de António Lobo Antunes na Visão de 7 Junho de 2007