é um tempo fechado
o insurgente rebelde revoltado revoltoso insubmisso insurrecto sublevado amotinado (pouco muito pouco)

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Quinta-Feira, 28 Junho 2007
juro que vou esquecer (2)
Juro que vou esquecer (*) estes corredores de gente amarrada às paredes, estes degraus de gente subindo ao inferno, estas cadeiras de espera solitária dispostos como em aviões, são de um azul forte, têm suor dentro e por isso transpiram incómodo e nojo. Têm uma chuva cinza e verde e braços gastos de mãos apertadas de medo. São cadeiras à espera de gente que vai talvez pensar pela primeira vez que pode morrer mais cedo do que previsto sabe-se lá quando é! cadeiras à espera de gente que se senta ao lado de gente que diz que não pensa em nada mas apenas pensa que quer viver e que pensam poder ainda viver como antes,

e esses, o que se sentam ao lado, esses que nada têm do mal dos outros, mal sem nome, que nunca tem nome ou tem sempre o nome doença, porque o seu nome é por demais pesado e bem escolhido e dizê-lo só em silêncio, para dentro, não havemos nós por lapso invocá-lo em vão e castigados já estão todos esses que se sentam, uns ao lado de outros; mal que lhes tocou por acaso, por acaso, porque sim, é a resposta dos médicos, que não há razão dizem..., ninguém sabe...

esses, os outros, os que se sentam ao lado, entre os quais eu, que não vou morrer ainda, juro que vou esquecer que estive aqui, sentado sem pensar e apenas de cabeça baixa, vou esquecer que estive aqui, depois de oito anos a tentar distinguir nos rostos sentados nestas cadeiras os olhos doentes dos olhos sãos, apenas para descobrir que todos eles já não têm olhos sequer, nem eu tenho olhos porque passo e já não vejo, oito anos depois já não olho, tenho vergonha de olhar, tenho medo que me castiguem com esse mal que não me tocou a mim; não têm olhos, todos estes rostos que aqui se sentam que quero esquecer já não têm olhos, mas sim e apenas mãos, quatro mãos cada um que se erguem destas cadeiras pedindo, pedindo sempre nada e tudo...,

e que lhes digam que não são eles que estão ali, que não são eles que se sentam nestas cadeiras de desespero, que não são eles que têm a amiga, a mãe, o marido, a mulher, o filho, a filha ali sentados na cadeira ao lado, que não são eles que sofrem do mal. Mas em vão, todos os olhos lhes negam nas mãos que tombam no chão. Pedem em vão.

(*) alguns dias depois de ler a crónica de António Lobo Antunes na Visão de 7 Junho de 2007

#jmmtc # [01:29]  
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