cheiro a vida
Há um cheiro doce e cru pela estrada, a cada curva, abro o vidro um pouco mais, e entra-me um prazer corpo dentro a fermentar-me o cérebro e os sentidos. Olho e estão castanhos os campos, um castanho mais forte do que antes, a secura amarelada e poeirenta começa a dissipar-se para um outono adubado, verde e frio. Mas o cheiro este, que anda no ar da estrada a fermentar-nos os olhos, deixa-nos um sabor açucarado na boca. A vindima anda nas estradas do oeste. Tractores de atrelado apinhado de uvas a transbordar. Pela manhã percebe-se o reboliço, mais movimento nos campos do que é habitual. Ao fim da tarde, é vê-los a fazerem fila na estrada às portas da cooperativa da azueira - hoje foi por lá que passei -, é vê-los, transbordam, uva preta, e o cheiro!
Quem vem de Lisboa, cidade onde cheira a mijo fétido em cada parede, e penetra neste fervilhar de trabalho e cheiros que nos deixa a cada inspiração um mosto pegajoso a escorrer-nos da boca até aos dedos só de olhar, percebe que a vida a existir, existe aqui, no meio das uvas. Um dia destes vou às vindimas.