a vida não é assim
Comprei o livro de José Luís Peixoto, "Cemitério de Pianos" e não o consigo ler. Sempre que chego ao fim do 1º capítulo, fecho o livro, e apago a luz. No dia seguinte ou noutro dia qualquer quando me lembro e me apetece, começo do início. Não, não é um sonho, começo mesmo do início como se não me lembrasse da história. O livro começa com um tipo doente a dizer que sabia que ia morrer assim que soube que estava doente. O tipo morre de doença. O 1º capítulo tem aí umas 3 ou 4 páginas, e lá pelo meio há uma enfermeira que diz para a mulher do tipo que assim que o marido dela falecer telefona a avisar. Há qualquer coisa que não bate certo. Não há nenhuma enfermeira que diga isto. Uma enfermeira não dá a certeza da morte mas a incerteza do "se". Por isso um telefonema é uma possibilidade. Mas como todas as possibilidades tem o seu grau de incerteza. É incerta, mas não menos inquieta. Claro que só percebe isto quem já passou por essa inquietação. Mas nem todas as enfermeiras são iguais.
Há demasiadas certezas neste 1º capítulo, o tipo sabe que vai morrer, a enfermeira sabe que ele vai morrer, a mulher também sabe que o marido vai morrer, a família reúne-se à espera de um telefonema. Demasiadas certezas para uma vida que acaba. É estranho. A vida não é assim. Por isso talvez fecho o livro sempre no mesmo sítio e depois apago a luz.