é um tempo fechado
o insurgente rebelde revoltado revoltoso insubmisso insurrecto sublevado amotinado (pouco muito pouco)

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Domingo, 14 Outubro 2007
O meu cérebro quer matar (a vida não tem de ser assim tão dura)
Um dia digo a vida não tem de ser assim tão dura. Não me venham com histórias, não há vida, relação, casamento que sobreviva a um cancro, a dezenas de ciclos de quimioterapia, de radioterapia. Nada sobrevive. Tudo é dilúido em misturas de químicos azuis, vermelhos. Tudo é diluído e um dia olhamos e o que vemos é apenas um catéter ambulante. Não se é mais do que isso, um depósito de fármacos, queimado por dentro e por fora. Não me venham com as histórias de sucesso, e de como se vence a luta apenas porque estamos vivos hoje, dia após ontem, e o que é preciso é espírito positivo, pensamento positivo. A merda! Não me venham com exemplos de gente que passou por um cancro e ainda aí está. Ninguém passa por um cancro. Um cancro atravessa-nos numa travessia interminável pela alma, pelo passado, pelos sonhos e pelo coração, deixando-nos sem futuro, e que repetidamente circula-nos o corpo, o nosso, que está doente e o dos outros, impotentes ambos, e nunca mais nos abandona. Por isso, fodam-se vocês e as vossas associações de fé, voluntárias contra o cancro, ide-vos a foder com as vossas marchas, caminhadas de coração colado ao peito. Doença crónica é o vosso cérebro suas conas. O meu tem vergonha, ódio, amargura, maldade, egoísmo, vómito, o meu quer matar, porque não foi capaz de um beijo, de um abraço, e desculpa-se por não saber que seria a última noite. O meu quer morrer porque só foi capaz de chorar na véspera de uma morte. Mas não tem perdão. O meu ansiou todos os dias e todas as noites por um fim libertador, para depois se arrepender de viver tais desejos. Até que o fim chegou e a calma não voltou. Ainda não voltou. E continua a arrepender-se, todos os dias, de não ter vivido.
#jmmtc # [10:49]  
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