Apontamentos numa piscina e outros em outros sítios (em fascículos)
I
Uma mulher interessante, aluna do instrutor de natação, chega para ter a sua aula e beija duas vezes as faces do instrutor de natação. O instrutor de natação recebe os beijos da aluna e dá-lhe uma palmada nas costas de modo muito gentil e conversa com ela durante breves instantes. A mulher entra dentro da piscina. Outra mulher, não tão interessante como a primeira, chega também para ter a sua aula, não beija o instrutor de natação e este não lhe dá uma palmada gentil nas costas nem conversa com ela durante breves instantes e ela entra simplesmente na piscina.
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II
O Porteiro
Quando v. chegou para trabalhar deram-lhe uma mesa vazia e disseram-lhe: Esta é a tua mesa. A mesa tinha um dos lados encostado a uma coluna da sala e ficava de frente para a porta, de modo que quando alguém entrava a primeira cara que via era a de v., que por sua vez via todas as caras que entravam. As pessoas começaram a chamar-lhe Porteiro, não tanto por acharem que v. era Porteiro mas porque, não sabendo o que v. fazia, pela sua posição geográfica na sala era fácil identificá-lo dessa forma. Aliás, as pessoas nem sabiam que v. se chamava v., diziam apenas: o Porteiro isto, o Porteiro aquilo. v. não sabia nada disto, mas fosse porque suspeitasse e como tal se sentisse na necessidade de explicar a sua posição ou por natural narcisismo, v. passava o tempo a dizer: eu isto, eu aquilo. Um dia, quando toda a gente já tinha esquecido o assunto pediu que lhe mudassem de lugar, no que foi satisfeito pelo chefe. As pessoas ainda não sabem o que v. faz, e agora quando querem falar dele dizem: o ex-Porteiro isto o ex-Porteiro aquilo. Por vezes também dizem o senhor-eu isto o senhor-eu aquilo. Depois com o tempo as pessoas esqueceram-se do assunto. As coisas acontecem assim sem muitas explicações.
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IV
Uma manhã um homem sem cabeça acordou sem pernas e ficou confuso, mas como não tinha cabeça não soube o que pensar. Outra manhã um homem sem braços acordou sem cabeça, sem ter o que pensar levantou-se. Uma outra manhã ainda um homem acordou sem nada, e por isso voltou a adormecer sem pensar muito no que aconteceu.
O primo Beto morreu.
Era um bom homem, foi-se! Lembro-me de inúmeras vezes, quando criança, o encontrar sempre ali na Praça da Figueira convivendo entre amigos de longe, patrícios da terra, fazendo assim o tempo de outrora mais perto. É aí, a esses encontros que a memória me leva, e o vejo sempre sorridente e bem disposto. O primo Beto morreu. Uma recordação antiga de uma casa para os lados da Alameda, uma visita, será? Não sei. Por razões infelizes, os encontros foram recentemente mais comuns, por corredores sombrios de gente à espera de mais vida. Por razões mais felizes, em ocasiões de convívio familiar, voltei a encontrá-lo muitas mais vezes. Sempre irremediavelmente bem disposto, conformado com a luta, com a calvície imposta e sem escolha, e com os olhos cada vez mais pequenos de medo e desesperança. Morreu, quero pensar, com a esperança de uma bandeira de sangue dor e amizade.