I
Os sapatos vermelhos que hoje trazes mantêm-me lúcido
como a tua beleza no brilho da manhã.
Há qualquer coisa que fere a consciência
da tua blusa azul turqueza.
Os teus sapatos observam-me,
a tua beleza emociona-me.
Os brincos de sabão não atrapalham em nada
a sombra do teu chapéu,
e o folhado dos teus cabelos respira perfeitamente
sobre a pele branca e a tua blusa cor-de-rosa.
A tua beleza ultrapassa a corrosão do alumínio
do meu cérebro e corrói o interior da solidão
mais do que o bicho da fruta.
II
O problema da tua blusa preta
é ser demasiado resistente à avaria
do ar condicionado.
O problema da minha lucidez
é não ter o horizonte de 15 km de costa
para sentir a curvatura do meu cérebro.
O problema da tua blusa preta
é que a destreza e o sucesso da tua fuga aos meus olhos
não invalida em nada o seu poder de fogo.
Há qualquer coisa que não bate certo.
O comboio fecha as portas no automático
do teu sorriso.
O suave torpor do teu corpo
como um animal ferido
convalesce na rotina das minhas mãos.
Olho-te o mosto açucarado dos teus olhos,
que não bate certo com a fermentação prolongada dos dias.
O caminho de ferro do teu desejo
descarrila-me os sentidos,
apanho o rápido do meu cérebro
com destino improvável.
chego com 10 minutos de atraso
para te ver chegar.
III
O horizonte é muito longe
para o vermos tão nítido.
Demorei o passar por ti os olhos
sobre o ombro da madeira,
onde o som te repousa os lábios
entreabertos,
e o silêncio te espera.
2004-2008