II
O Porteiro
Quando v. chegou para trabalhar deram-lhe uma mesa vazia e disseram-lhe: Esta é a tua mesa. A mesa tinha um dos lados encostado a uma coluna da sala e ficava de frente para a porta, de modo que quando alguém entrava a primeira cara que via era a de v., que por sua vez via todas as caras que entravam. As pessoas começaram a chamar-lhe Porteiro, não tanto por acharem que v. era Porteiro mas porque, não sabendo o que v. fazia, pela sua posição geográfica na sala era fácil identificá-lo dessa forma. Aliás, as pessoas nem sabiam que v. se chamava v., diziam apenas: o Porteiro isto, o Porteiro aquilo. v. não sabia nada disto, mas fosse porque suspeitasse e como tal se sentisse na necessidade de explicar a sua posição ou por natural narcisismo, v. passava o tempo a dizer: eu isto, eu aquilo. Um dia, quando toda a gente já tinha esquecido o assunto pediu que lhe mudassem de lugar, no que foi satisfeito pelo chefe. As pessoas ainda não sabem o que v. faz, e agora quando querem falar dele dizem: o ex-Porteiro isto o ex-Porteiro aquilo. Por vezes também dizem o senhor-eu isto o senhor-eu aquilo. Depois com o tempo as pessoas esqueceram-se do assunto. As coisas acontecem assim sem muitas explicações.